Peixe frito que família comeu no almoço no domingo, em Natal — Foto: Cedida
Sesap informou que casos de intoxicação por ciguatera foram notificados nesta segunda-feira (27). RN tem 115 casos de ciguatera em 2026 – número superior a todo ano de 2025.
Cinco pessoas da mesma família passaram mal no domingo (26), em Natal, após comerem um peixe do tipo bicuda no almoço. Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) confirmou que os casos foram notificados como intoxicação por ciguatera na segunda-feira (28).
Três delas precisaram ser hospitalizadas após apresentarem sintomas variados e duas permaneciam na UTI até esta terça-feira (28), mas com quadros estáveis.
Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que investiga dois possíveis surtos na capital potiguar “com sintomas sugestivos de intoxicação por ciguatera, após consumo de peixe bicuda, com quatro hospitalizações”.
A pasta não confirmou se uma das investigações é em relação ao caso da família.
“As investigações têm como objetivo coletar informações necessárias ao controle do surto, identificar os agentes etiológicos, identificar a população de risco, fatores associados, provável fonte de contaminação e propor medidas de prevenção e controle. Além de fiscalizar toda a cadeia produtiva, desde o local onde foi preparado o pescado até onde ele foi comprado”, informou a pasta.
👉 A ciguatera é uma intoxicação alimentar causada pela ingestão de peixes contaminados com toxinas produzidas por microalgas que se proliferam em recifes de corais tropicais e subtropicais. Os sintomas variam de enjoos a neurológicos. Não há tratamento específico para a ciguatera (entenda melhor mais abaixo).
A SMS orientou ainda que os consumidores adquiram pescados apenas em locais confiáveis e devidamente regularizados, evitando riscos à saúde.
Segundo a Sesap, em 2026 o Rio Grande do Norte recebeu notificação de 115 casos – entre casos suspeitos e confirmados – de ciguatera. Em 2025, ao todo, foram 90 confirmados.
O estado é o único no país a fazer a notificação compulsória em casos suspeitos de ciguatera.
“Esse fato contribui também para esse aumento de casos. A gente precisa entender que quanto mais informação é difundida, mais eu chamo a atenção para isso, e os profissionais de saúde ficam mais sensíveis também para possíveis intoxicações por ciguatera”, explicou a coordenadora de Vigilância em Saúde do RN, Diana Rêgo.
Família passa mal após almoço de domingo
O fisioterapeuta Mário Saraiva contou que a família comprou o peixe do tipo bicuda em uma feira livre no Alecrim, na Zona Leste de Natal, para fazer o almoço do domingo. Cerca de três horas depois de consumirem os alimentos, começaram a passar mal.
Os primeiros sintomas, contou, foram registrados no sobrinho-neto dele, de 3 anos.
“Ele começou a se queixar de dores abdominais e, pouco tempo depois, a minha irmã começou a ter a os mesmos sintomas”, contou.
Duas irmãs e a mãe dele, de 89 anos, precisaram ser hospitalizadas. Segundo Mário, os sintomas na irmã se agravaram de forma rápida.
“Levaram ela a um desmaio, queda de pressão, diarreia, vômito e esses sinais fizeram com que ela tivesse 4 por 2 de pressão e uma convulsão”, relatou. Após o susto, Mário falou que a situação da irmã foi estabilizada.
A outra parte do peixe comprado na feira foi recolhida e levada para ser examinada pelas autoridades sanitárias.
Casal passa mal após jantar em restaurante
O outro caso registrado recentemente foi com um advogado que jantou com a esposa em um restaurante no dia 17 de abril. Os dois passaram mal durante a madrugada e também precisaram de atendimento médico.
“Na emergência teve soro na veia, teve prescrição de medicamento, o médico informou que iria notificar a intoxicação, o que poderia ser, e aí informou que era notificação obrigatória. Depois a gente teve contato também com a vigilância sanitária e informamos tudo o que aconteceu, o tipo de peixe, enfim, o local”, relatou o advogado Abaeté Mesquita.
O peixe consumido pelo casal foi o sirigado. O advogado contou que o primeiro sintoma do casal foi o empachamento, seguido de enjoo e diarreia. Eles também tiveram sintomas neurológicos.
“Passamos a madrugada inteira vomitando e com diarreia, e a fraqueza natural da desidratação. E depois começou essa parte de sintomas neurológicos, essa dormência nos lábios, nas extremidades, aquela sensação de formigamento e, ao lavar as mãos, ao tomar líquidos, a sensação de queimação no líquido que está na temperatura ambiente”, disse.
Histórico de casos
O primeiro surto no estado foi registrado em 2022, acometendo dez pessoas de um mesmo núcleo familiar, associado ao consumo do peixe popularmente conhecido como bicuda (barracuda).
Desde o primeiro caso, foram registrados episódios envolvendo diferentes espécies de peixes, segundo a Sesap, com destaque para barracuda (bicuda), cioba, guarajuba, arabaiana e dourado – incluindo confirmações laboratoriais da presença de ciguatoxina caribenha em algumas amostras analisadas.
Ciguatera: entenda o que é
A ciguatera é uma intoxicação alimentar causada pelo consumo de peixes que vivem em áreas de corais e recifes contaminados por ciguatoxinas. Essas toxinas estão presentes em microalgas invisíveis a olho nu.
Peixes pequenos comem essas algas e acabam passando a toxina para os peixes maiores e carnívoros.
Quando o ser humano consome um desses peixes de médio ou grande porte, a intoxicação acontece, podendo causar sintomas que variam de enjoos a problemas neurológicos.
A Sesap reforça ainda que as ciguatoxinas são incolores, inodoras e insípidas, não sendo eliminadas por métodos convencionais de cozimento, congelamento, salga e defumação. Uma vez presente no pescado, a toxina permanece ativa mesmo após preparo e digestão. As maiores concentrações das toxinas estão presentes na cabeça, vísceras e ovas dos peixes.
Sintomas da ciguatera
Segundo a Sesap, os principais sinais e sintomas da ciguatera aparecem entre 30 minutos e 24 horas após a ingestão do pescado contaminado, caracterizados por:
- dor abdominal;
- náuseas;
- vômitos;
- diarreia;
- dores de cabeça;
- cãibras;
- coceira intensa;
- fraqueza muscular;
- visão turva; e
- gosto metálico na boca;
Os sintomas podem persistir por semanas ou meses. A Sesap informou ainda que não existe tratamento específico ou antídoto para a ciguatera.
Segundo o médico infectologista Antônio Araújo, o tratamento visa combater os sintomas, que costumam ser abrangentes.
“A diarreia, que é um quadro mais frequente nesses pacientes, a gente tem que hidratar. Nós não podemos fazer antidiarreico nem antinflamatório, porque senão você contém mais toxina nos pacientes. Nos pacientes neurológicos, eles podem ter uma neurite periférica e muita dor no corpo, aí você vai fazer um analgésico mais potente”, explicou.
“Os pacientes cardiovasculares têm que ir para o UTI, porque eles podem ter uma bradicardia ou pode ter uma extrassístole levando a um quadro mais grave. E o problema dermatológico, que é um prurido intenso que você pode apresentar por muito tempo, e esse prurido pode ser aliviado com anti-alérgicos comuns que nós temos no comércio farmacêutico”, falou.
Recomendações à população
As principais recomendações da Sesap à população são:
- procurar imediatamente os serviços de saúde diante de sintomas compatíveis, informando o consumo de pescado nas últimas 48 horas;
- identificar a espécie consumida e preservar sobras do pescado, acondicionadas e congeladas, para posterior coleta pela Vigilância Sanitária;
- evitar o consumo de pescados associados a relatos de intoxicação por Ciguatera, especialmente aqueles de procedência desconhecida.
O Centro de Informação e Assistência Toxicológica do RN (CIATOX-RN) também pode ser acionado em caso de dúvidas sobre a condução do caso. O Ciatox funciona em regime de plantão 24 horas por meio dos telefones 0800 281 7005 | WhatsApp (84) 98883-9155.
G1 RN.
